Afinal, uma experiência espiritual ou um transtorno psicológico?

“O conceito que constitui uma “mente sadia” difere consideravelmente de uma cultura para outra… Quão devastador seria julgar “doença mental” a qualquer estado de consciência extraordinária!?”*
– Heinz, 1982

Devido à semelhança dos comportamentos dissociativos e a mediunidade, temos uma frequente confusão em relação a qual conceito a experiência se enquadra. Essa confusão resulta normalmente em uma patologização de uma experiência espiritual genuína ou na tentativa de identificar como um quadro mediúnico um comportamento psicopatológico. Consideram-se também os enquadramentos de doenças em geral a um caráter religioso, como uma espécie de karma ou desejo divino.

É muito comum a patologização da espiritualidade. Sua aceitação enfrenta diretamente determinações científicas, filosóficas e espirituais sobre uma pós-vida, que conflita em diversas visões de mundo que transitam em nossa sociedade. Estudos revelam que muito normalmente estas experiências mediúnicas passam por um diagnóstico de epilepsia, esquizofrenia, transtorno de personalidade, traumas e outras mais. Diversas experiências científicas já foram realizadas relacionando o fenômeno espiritual e diagnósticos psicológicos, criando novos olhares sobre o caso e refinando o diagnóstico.

Epilepsia

A epilepsia já foi associada a possessões de espíritos por diversas vezes em diferentes locais. Um estudo realizado na Itália indica que 4% de 1,5 mil adultos entrevistados acreditavam que a epilepsia era causada por um espírito maligno. (Mecarelli et all., 2010). De qualquer forma, a epilepsia dificilmente teria uma relação direta com a mediunidade, considerando que a crise epiléptica se manifesta inintencionalmente e na mediunidade existe um contexto anterior, seja concentração, meditação, comunicação, rituais ou etc.

Esquizofrenia

Existe uma grande barreira na percepção de um quadro esquizofrênico e uma atividade mediúnica, devido à similaridade dos comportamentos de ambas. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o Dr. Alexander Moreira-Almeida junto com o professor Menezes, levantaram nove critérios para instrumentalizar o diagnóstico do transtorno mental e da vivência espiritual. São eles:
Ausência de sofrimento psicológico; Ausência de prejuízos sociais e ocupacionais; Duração curta da experiência; Atitude crítica (ter dúvidas sobre a realidade objetiva da vivência); Compatibilidade com o grupo cultural ou religioso do paciente; Ausência de comorbidades; Controle sobre a experiência; Crescimento pessoal ao longo do tempo e Atitude de ajuda aos outros. Ainda assim, os pesquisadores ressaltaram que há a necessidade de uma pesquisa controlada considerando estes critérios, mas acreditam que a presença destes sugerem uma experiência espiritual não patológica.

 “Os médiuns, assim como qualquer pessoa, podem sofrer de transtornos mentais. Mas os estudados exibiram um bom nível de ajustamento social e uma prevalência de problemas psiquiátricos menor do que a população geral”
– Alexander Moreira, 2010

Transtorno de Personalidade e Traumas

Muito facilmente o sujeito em uma atividade mediúnica pode ser enquadrado em um quadro de despersonalização. Ao mesmo tempo em que nos casos do transtorno de personalidade, as novas identidades adotadas contemplavam aspectos mais interessantes do que a identidade originária. Considerando isso e os aspectos culturais religiosos, é natural que pessoas em estado de transtorno de personalidade adotem novas formas de ser. Também é considerável a noção de morte e a sua resistência, sendo então personalidades postmortem uma opção desejável para quem sofre deste conflito, como uma forma de dar forma para sua necessidade de sobrevivência.
De qualquer forma, em consideração aos médiuns genuínos, seus comportamentos similares fazem parte de uma tomada de controle de uma mente sobre outra. Sendo muito difícil dissociar um evento de outro.
Em conclusão, segundo o Dr. Moreira-Almeida “A experiência mediúnica não parece ser comparável com o transtorno de personalidade clínica, considerando a melhor saúde mental, integração social e outros transtornos psicológicos encontrado nos casos de Transtorno de Personalidade.”


De qualquer maneira, a presença de um transtorno mental não impede a experiência mediúnica, nem o oposto. Em outras palavras, “anomalias neurológicas e mediunidade legítima não excluem uma à outra” (Kaminker, 2014). Mesmo em evidência que nos casos de indivíduos relacionados com religiões analisados em pesquisas, possuem menor incidência de transtornos mentais.

É possível que, mesmo em presença de alguma psicopatologia, os indivíduos seguidores de uma religião possuam um melhor enfrentamento, devido ao auxílio ofertado por seus dogmas e sua comunidade ativa. Possivelmente, a vivência nestes ambientes podem, de alguma maneira, contribuir para a recuperação ou auxílio destas patologias.

 

 


*Heinz apud Kaminker, The Survival Hypothesys: Essays on Mediumship, 2014; Tradução Livre.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ROCK et all., The Survival Hypothesys: Essays on Mediumship, 2014, McFarland – North Carolina
  • Universidade Federal de Juiz de Fora, Pesquisa revela que mediunidade não está atrelada à esquizofrenia. Disponível aqui. Acesso em 14 de Novembro, 2017.
  • BRAUDE, Stephen, Mediuship and Multiple Personality, July 2016. Disponível aqui. Acesso em 16 de Novembro, 2017.
  • MOREIRA-ALMEIDA, Alexander & LOTUFO NETO, Francisco & CARDEÑA, Etzel. (2008). Comparison of Brazilian Spiritist Mediumship and Dissociative Identity Disorder. The Journal of nervous and mental disease. Disponível aqui
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